{"id":2636,"date":"2024-06-04T15:21:21","date_gmt":"2024-06-04T18:21:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/?p=2636"},"modified":"2024-06-04T15:21:21","modified_gmt":"2024-06-04T18:21:21","slug":"as-quatro-mortes-de-tia-socorro-por-romulo-maia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/2024\/06\/04\/as-quatro-mortes-de-tia-socorro-por-romulo-maia\/","title":{"rendered":"As quatro mortes de tia Socorro, por R\u00f4mulo Maia"},"content":{"rendered":"<div>\n<div id=\"attachment_2637\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2637\" class=\"wp-image-2637 size-medium\" src=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Screenshot_20240504-083810_Instagram-300x229.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"229\" srcset=\"https:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Screenshot_20240504-083810_Instagram-300x229.jpg 300w, https:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Screenshot_20240504-083810_Instagram-768x587.jpg 768w, https:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Screenshot_20240504-083810_Instagram-810x619.jpg 810w, https:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Screenshot_20240504-083810_Instagram.jpg 961w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-2637\" class=\"wp-caption-text\">Tia Socorro e eu na sua casa do Mercador. Foto: Arquivo pessoal<\/p><\/div>\n<blockquote><p><strong>Por R\u00f4mulo Maia<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><i>\u201cDeixa eu cheirar a cabe\u00e7a!\u201d.\u00a0<\/i>Aquilo n\u00e3o era um pedido; era uma convoca\u00e7\u00e3o. Encostava, afagava meus cabelos, cafungava profundo e, ent\u00e3o, anunciava com uma express\u00e3o exagerada de espanto: \u201cPuura jumento!\u201d.<\/p>\n<div>Fosse no terreiro do Mercador, num esbarrar na feira, na cozinha aqui de casa e at\u00e9 mesmo quando ela ficou presa a uma cama: esse era o ritual de boas vindas de Tia Socorro comigo. Seu jeito pr\u00f3prio de me recepcionar e demonstrar carinho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando eu aparecia na sua porta ap\u00f3s dias ausente, ela saudava de longe: \u201cAh! Apareceu, cachorro v\u00e9i!?\u201d. Se as palavras n\u00e3o eram bonitas, o sorriso que as acompanhava dizia tudo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Foi quem primeiro me deu um presente de casamento &#8211; tr\u00eas anos antes de Mayara e eu planejarmos casar. Quando noivamos, fomos at\u00e9 ela mostrar as alian\u00e7as. Bem s\u00e9ria, olhou pra noiva e aconselhou: \u201cAinda d\u00e1 tempo de arrumar outro.\u201d E apontando pra mim com os bei\u00e7os, avisou: \u201cEsse cachorro a\u00ed num presta pra nada.\u201d Depois, juntou nossas m\u00e3os, beijou os dois an\u00e9is e encomendou nossa uni\u00e3o a uma ruma de santos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O c\u00f3digo que traduzia seus sentimentos, definitivamente, n\u00e3o estava na palavra literal. Ela era assim mesmo, meio ao avesso; pouco convencional no lidar com os outros.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao lado de sua cama, pra animar as visitas casuais, inventei hist\u00f3rias absurdas. Muitas! E mesmo incr\u00e9dula, Tia Socorro espalhou todas via celular. \u201c\u00d4 Lu\u00eds, \u00e9 verdade que voc\u00ea subiu as escadas do Padre Ci\u00e7u de joelhos e comendo uma melancia?\u201d<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tamb\u00e9m consolei seu choro, dei bronca, fumei da sua parronca, fiz massagem, ouvi fofocas e lamenta\u00e7\u00f5es.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Digo que Tia Socorro morreu quatro vezes: a primeira, junto com Tio Francisco, h\u00e1 17 anos. Ao enviuvar, perdeu o companheiro da vida, fonte permanente de cuidado, carinho e venera\u00e7\u00e3o. Quando precisou deixar o Mercador, ela morreu pela segunda vez. Ficaram na fazenda da fam\u00edlia os trecos, cacarecos e as lembran\u00e7as de uma rotina movimentada e feliz. A terceira vez, foi quando o corpo cansou, as pernas fraquejaram e ela j\u00e1 n\u00e3o podia mais sair de casa sozinha. A\u00ed passou a conviver com a presen\u00e7a permanente da aus\u00eancia \u2013 indigna companheira. H\u00e1 11 dias Tia Socorro silenciou para a eternidade. Foi sua quarta e derradeira morte.<\/div>\n<\/div>\n<div>Eu estava num \u00f4nibus, a caminho de Pio IX, quando a not\u00edcia me baleou. Cheguei para a despedida.<\/div>\n<div>Tivesse a chance de uma \u00faltima pergunta, juro que indagaria se minha cabe\u00e7a cheira mesmo a jumento. Mas at\u00e9 imagino a resposta:<\/div>\n<div>\u201cS\u00f3 o puro!\u201d<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por R\u00f4mulo Maia \u201cDeixa eu cheirar a cabe\u00e7a!\u201d.\u00a0Aquilo n\u00e3o era um pedido; era uma convoca\u00e7\u00e3o. Encostava, afagava meus cabelos, cafungava profundo e, ent\u00e3o, anunciava com uma express\u00e3o exagerada de espanto: \u201cPuura jumento!\u201d. 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