{"id":1270,"date":"2022-11-04T10:20:19","date_gmt":"2022-11-04T13:20:19","guid":{"rendered":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/?p=1270"},"modified":"2022-11-17T10:43:19","modified_gmt":"2022-11-17T13:43:19","slug":"a-viuva-do-seringal-por-socorro-brasiliense","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/2022\/11\/04\/a-viuva-do-seringal-por-socorro-brasiliense\/","title":{"rendered":"A Vi\u00fava do Seringal, por Socorro Brasiliense"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1045 aligncenter\" src=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1-300x170.jpg\" alt=\"\" width=\"388\" height=\"220\" srcset=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1-300x170.jpg 300w, http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1.jpg 388w\" sizes=\"auto, (max-width: 388px) 100vw, 388px\" \/><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Um barulho horr\u00edvel e arrepiante BUMMM, um seringueiro havia ca\u00eddo de mal jeito de uma altura de 15 metros enquanto recolhia o precioso l\u00e1tex da gigante Hevea brasiliensis, leite da vida e da ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Com tambores, telefone de \u00edndio, batendo com as nozes de castanha do Par\u00e1 no tronco das gigantescas Suma\u00famas, sinais de fuma\u00e7a, e r\u00e1dio cip\u00f3, conseguiram chamar de longe o respeitado paj\u00e9 todo enrugado, parecendo um maracuj\u00e1, com olhos fundos astutos e bem vivos. Ele pertence a tribo dos Ticunas, uma isolada comunidade ind\u00edgena que vive\u00a0 do lado brasileiro da fronteira entre o Brasil e a Col\u00f4mbia, lugar bel\u00edssimo paradis\u00edaco, verde, azul, \u00a0\u00a0ali\u00a0 a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de incr\u00edvel paz infinita, e muito distante, segundo os mitos os Ticunas s\u00e3o origin\u00e1rios\u00a0 do igarap\u00e9 Eware, que fica nas nascentes do igarap\u00e9 Tonat\u00fa . L\u00e1 sim era que tinham cobras de todos os tamanhos, algumas enormes, at\u00e9 os incr\u00e9dulos, quando entram em contato com as florestas tropicais encantadas e misteriosas, passam a acreditar em tudo. O tempo ali n\u00e3o passa e n\u00e3o \u00e9 medido em horas, sempre na base do se acalme, n\u00e3o existe pressa para nada nesta vida, s\u00f3 para escapar da morte.<\/p>\n<p>Finalmente chegou o Paj\u00e9 disfar\u00e7ado de feiticeiro, como era de se esperar n\u00e3o falava uma \u00fanica palavra de portugu\u00eas e estava visitando algumas aldeias da regi\u00e3o.\u00a0 Quando viu o seringueiro estirado na rede, fez todas as pajelan\u00e7as, invocou os esp\u00edritos do fundo do Rio do Al\u00e9m, exorcizou as entidades do bem e do mal da floresta encharcada, no Para\u00edso tropical, invocou as divindades de todos os tipos que vem buscar os homens quando chega a sua hora, entoou c\u00e2nticos, fez dan\u00e7as do fogo, fuma\u00e7as de plantas arom\u00e1ticas,\u00a0 preparou\u00a0 beberagens com v\u00e1rios tipos de ervas medicinais e m\u00e1gicas que encontrou ali no bosque e realizou todos os\u00a0 ritos que aprendeu com seus ancestrais para ressuscitar o pobre homem, por\u00e9m sem sucesso.<\/p>\n<p>Agora j\u00e1 era tarde o mesmo estava morto.<\/p>\n<p>A comunidade de seringueiros da regi\u00e3o deveria se conformar logo com a tristeza da not\u00edcia. Mas ali tamb\u00e9m corria uma misteriosa esperan\u00e7a. Ele havia deixado sua mulher vi\u00fava,\u00a0 linda cabocla amaz\u00f4nica, morena, cabelos pretos como a noite sem luar, lisos e perfumados, olhos de feiti\u00e7o de cobra Jiboia, \u00a0sedutores, gateados, amarelados e amendoados,\u00a0 ancas largas e f\u00e9rteis, que rebolavam sensualmente quando caminhava, instigando os homens presentes ao funeral, boca vermelha, carnuda e luzente, pois seus dentes eram encapados de ouro. Esta era uma pr\u00e1tica muito comum na \u00e9poca utilizada por prot\u00e9ticos curiosos e que aumentavam o valor do dote feminino. Sabia costurar, fazia objetos dom\u00e9stico tran\u00e7ando cip\u00f3 e Tucum, e tamb\u00e9m sabia ler, escrever, fazer contas,\u00a0 cozinhava muito bem os banquetes nativos, \u00f3tima parideira e com tr\u00eas pequenos filhos homens, eram felizes quando o marido estava vivo ao todo somavam v\u00e1rias bocas para comer e 50 dedos em cinco pares de m\u00e3os para trabalhar.<\/p>\n<p>Havia um n\u00famero muito grande de homens de v\u00e1rias esp\u00e9cies e ra\u00e7as que circulavam ali por tantos motivos, que at\u00e9 Deus duvida, eram muito fortes e m\u00e1sculos, pois isolados, s\u00f3 os mais preparados, prudentes e inteligentes conseguiam sobreviver naquele inferno verde, eram for\u00e7ados a se livrar das feras, \u00edndios caceteiros, plantas e formigas carn\u00edvoras, dermatoses de todos os tipos contra\u00eddas de fungos transmitidos por plantas nativas das florestas tropicais e mais ainda da febre ter\u00e7\u00e3, que se propagava facilmente entre eles j\u00e1 que n\u00e3o possu\u00edam mosquiteiros ou repelentes muito menos quinino para os salvar. Tinha tanto paludismo, que at\u00e9 os macacos picados pela f\u00eamea do mosquito anopheles tamb\u00e9m caiam das \u00e1rvores com febre, os que n\u00e3o morriam logo, corriam para o rio e tomavam banho na \u00e1gua fria que tamb\u00e9m era fatal.<\/p>\n<p>Lugar bom para se esconder sempre foi a mata,\u00a0 entre estes homens, como filhos do trov\u00e3o, benignos e malignos, numeravam remanescentes das expedi\u00e7\u00f5es do Marechal Rondon, alguns ex- escravos negros que fugiram dos quilombos, pescadores dos peixes gigantes como o Pirarucu e peixes minusculos ornamentais fluorescentes, \u00a0garimpeiros, madeireiros, grileiros, devedores da justi\u00e7a, homens guerreiros e valentes com coragem de mamar em on\u00e7a e deixar os filhotinhos com fome, assassinos, pistoleiros, matadores de aluguel, aventureiros, corajosos e curiosos pelos mist\u00e9rios do eldorado selvagem amaz\u00f4nico, vision\u00e1rios, adivinhos, alquimistas a procura do elixir da beleza, juventude e vida eterna na terra, volunt\u00e1rios para tudo, loucos que chegavam e outros que facilmente ficavam, profetas, sonhadores, homossexuais, catadores de castanhas do Par\u00e1, outras frutas ex\u00f3ticas, cogumelos comest\u00edveis e alucin\u00f3genos, e principalmente ervas medicinais, contrabandistas de toda sorte, m\u00edsticos andarilhos errantes, eremitas devotos de Santo Onofre, bot\u00e2nicos alem\u00e3es, ingleses, dinamarqueses, japoneses, guardas da sa\u00fade para prender os hansenianos que fugiam dos Hospitais Col\u00f4nias,\u00a0 eles eram confinados compulsoriamente nestes locais de forma arbitr\u00e1ria, e quando podiam escapavam com as poucas for\u00e7as que tinham , mission\u00e1rios perdidos, que depois de tanta realidade intensa selvagem abandonaram a f\u00e9 e tornaram-se ateus, ca\u00e7adores de peles de animais silvestres ex\u00f3ticos e em extin\u00e7\u00e3o, mamelucos, prot\u00e9ticos curiosos, m\u00e9dicos verdadeiros e charlat\u00f5es, curandeiros, travestis, caravanas perdidas de tropeiros e bandeirantes vindos do sul do pa\u00eds, top\u00f3grafos, m\u00e1gicos e encantadores de serpentes, c\u00e9ticos que se tornavam fervorosos fi\u00e9is a Cristo depois da experi\u00eancia ali, ca\u00e7adores de pedras preciosas, eles se respeitavam muito e eram bem amiguinhos entre si, outros chegados em 1877 com a seca do nordeste, esses haviam virado her\u00f3is s\u00e3o os soldados da borracha\u00a0 a maioria nordestinos, principalmente, paraibanos, alagoanos, pernambucanos, cearenses e piauienses fugindo da caatinga da vida \u00e1rida e des\u00e9rtica, quando tinham as memor\u00e1veis secas implac\u00e1veis, e foram iludidos com o Eldorado Aqu\u00e1tico,\u00a0 muitos lutaram com a Bol\u00edvia para que o Acre se tornasse brasileiro.<\/p>\n<p>Como poucos deles haviam vindo com a fam\u00edlia, encontrar uma mulher l\u00e1 era como procurar uma agulha no palheiro. Uma vez a cada cinco anos chegava um grande navio atrav\u00e9s do Rio das Almas que trazia nativas disfar\u00e7adas de bailarinas francesas do Can-Can, procedentes de Manaus, algumas eram prostitutas outras n\u00e3o e tamb\u00e9m eram aves raras naquele misterioso para\u00edso tropical.<\/p>\n<p>Os seringueiros conheciam as estradas de seringa, como as veias dos seus corpos.<\/p>\n<p>Decidiram que o funeral deveria durar alguns dias na casa dele que ficava pr\u00f3xima \u00e0 beira do Rio das Almas, o local n\u00e3o era grande, tinha a casa m\u00e3e com varanda de todos os lados e tr\u00eas quartos dentro, um destes compartimentos servia de cozinha. Eles estavam esperando mais amigos para a despedida, e para que mesmo os retardat\u00e1rios pudessem v\u00ea-lo, resolveram defumar o cad\u00e1ver como faziam com a pela da borracha. A fam\u00edlia morava nesta casa faziam 4 anos ela era toda constru\u00edda com Paxi\u00faba tudo amarrado, n\u00e3o possu\u00edam pregos. Esta palmeira \u00e9 muito apreciada e peculiar da regi\u00e3o, sua primeira raiz cresce at\u00e9 certo ponto e para, mas o resto da planta continua a crescer, com isso o estipe produz ra\u00edzes a\u00e9reas que v\u00e3o at\u00e9 o ch\u00e3o e parecem escoras, formando um complexo de grutas, que para os pequenos animais selvagens serve de abrigo, os seringueiros tamb\u00e9m constru\u00edam o corpo das casas com sua madeira, como palafitas, e tamb\u00e9m o assoalho, e suas folhas s\u00e3o utilizadas para cobrir a casa, o palmito \u00e9 comest\u00edvel, se faz vassoura, \u00e9 uma planta de mil e uma utilidades. Em baixo da casa eles faziam tudo gradeado e com uma porta e moravam os animais dom\u00e9sticos, at\u00e9 a gata preta chamada Agripina chegou ali de navio trazida por um bi\u00f3logo italiano e ficou l\u00e1, chorava felinamente a perda do seu dono. Pr\u00f3ximo a casa havia uma pequena jaula feita de resistentes cip\u00f3s, com uma pequena Jaguatirica, e outra com 3 filhotes de Gato Maracaj\u00e1 encontrados na mata, perdidos de suas m\u00e3es, eles parecem on\u00e7as em miniatura, alguns gamb\u00e1s soltos, ja\u00e7an\u00e3s, papagaios e periquitos que sabiam falar e rezar, l\u00f3gico eles produziam uma\u00a0 forte inhaca , mas bem tolerada por todos habituados com todas as surpresas que estes locais apresentam. Quando o Rio das Almas enchia os animais eram trazidos para as varandas da casa, e todos os objetos que estavam embaixo deveriam ser atrepados, pois as grandes \u00e1guas da alaga\u00e7\u00e3o do rio que acontecem a cada seis meses de chuvas torrenciais cobria tudo, l\u00f3gico nos anos de inverno forte. A maior preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre com as cobras grandes que est\u00e3o constantemente de barriga vazia e podem aparecer a qualquer momento, dando o inesperado bote. Tamb\u00e9m ao lado havia uma casinha de defuma\u00e7\u00e3o para preparar os rolos de borracha com a defuma\u00e7\u00e3o, onde o marido havia trabalhado em vida e agora era v\u00edtima da mesma.<\/p>\n<p>Ao redor da casa alumiaram tudo com tochas de fogo para espantar as feras dos seus ataques noturnos, tamb\u00e9m sinalizar e facilitar a chegada de outras pessoas para a \u00faltima despedida ao caro amigo.\u00a0\u00a0\u00a0 Tudo era iluminado com velas de cera de Andiroba e lamparinas alimentadas com \u00f3leo de Copa\u00edba e querosene comprado a retalho no Barrac\u00e3o dos Coron\u00e9is. Outros homens queriam fumar cigarros de palha e mascar tabaco, e espantar os meruins, mucuins, formigas e carapan\u00e3s. Alguns foram para fora acender fogueiras de erva cidreira e assim deixar distantes os insetos rastejantes e voadores noturnos, \u00a0queriam tomar Ayahuasca, para ter vis\u00f5es, sonhar e esquecer a morte do amigo e n\u00e3o pensar nas suas. \u00a0Beber cacha\u00e7a bebida m\u00e1gica que serve para tudo at\u00e9 parto que n\u00e3o falta sob hip\u00f3tese alguma nestes locais e queriam ficar menos tristes, e ap\u00f3s algumas descontra\u00eddas doses,\u00a0 tomar caf\u00e9 para acordar, e beber o alu\u00e1 feito de abacaxi gigante, e Bacaba\u00a0 que parece a seiva branca do a\u00e7a\u00ed,\u00a0 seu vinho \u00e9 feito de uma polpa muito nutriente, vinho de murici, doce de buriti, pupunha cozida e tucum\u00e3 no dente, chupar Ing\u00e1, comer Uxi, suco de Tapereb\u00e1. Comiam peixe de \u00e1gua doce salgado e seco assado na brasa, carne de macaco guisado, carne de on\u00e7a frita, cuscuz feito de milho seco ralado a m\u00e3o, e misturado com castanha do Par\u00e1, molhado no seu leite, peixe Mapar\u00e1, Curimat\u00e3 e Mandim cozido com chic\u00f3ria, Pirarucu frito e cozido no leite da castanha, caldo de Tucunar\u00e9 com mandioca cozida, casquinhas de mu\u00e7u\u00e3 com farofa.<\/p>\n<p>Haviam muitas redes penduradas nos arredores da casa para poder hospedar todos que chegavam para a f\u00fanebre e festiva ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Fizeram uma cruz de seringueira, e encaparam com couro de cobra venenosa e pantera negra, fincaram pr\u00f3ximo da casa de defuma\u00e7\u00e3o pra espantar os maus esp\u00edritos.<\/p>\n<p>Resolveram pedir a um dos presentes que haviam chegado para tirar o Ter\u00e7o Cat\u00f3lico e ajudar o defunto na passagem desta vida para uma melhor a eterna. Estavam presentes neste ritual, homens com o famoso corpo fechado, pois o pr\u00f3prio sangue e suor era t\u00e3o forte e\u00a0\u00a0 venenoso que at\u00e9 as serpentes e todos os tipos de insetos que os picavam ou mordiam, caiam mortinhos na hora, espantavam tudo com sua presen\u00e7a, at\u00e9 gente ruim, cobras de duas pernas e maus pensamentos, outros com olhar de seca pimenteira que metiam medo at\u00e9 nas on\u00e7as pintadas que circulavam na \u00e1rea, apenas os avistavam saiam em r\u00e1pida retirada esturrando de medo deles.<\/p>\n<p>Alguns desses disseram que n\u00e3o sabiam ler e que n\u00e3o tinham o livro de reza do ros\u00e1rio e encomenda\u00e7\u00e3o do corpo. Padres ali s\u00f3 s\u00e3o vistos nesses locais na \u00e9poca da desobriga, \u00e0s vezes aparecem a cada ano, para realizar missas, batizados, casamentos, extrema un\u00e7\u00e3o, e quando n\u00e3o tinha jeito, faziam exorcismo. Mas eles iriam improvisar a reza com um Ter\u00e7o de semente de A\u00e7a\u00ed como faziam quando estavam perdidos na mata, com medo das lendas da floresta, rezando e se achando, pois \u00e9 sempre mais f\u00e1cil se perder que se achar. Mesmo sendo duros na queda, choraram um pouco e ap\u00f3s os ritos iniciais fizeram o sinal do Cruz Credo. Assim deu-se in\u00edcio ao estranho e surreal ter\u00e7o de despedida.<\/p>\n<p>Que come\u00e7ou assim:<\/p>\n<p>Pai nosso, tr\u00eas Ave Maria e o famoso Credo que espanta tudo de mal.<\/p>\n<p>Primeiro Mist\u00e9rio:<\/p>\n<p>Este ter\u00e7o \u00e9 em inten\u00e7\u00e3o da alma do Sr. Jos\u00e9, quando estava caindo da \u00e1rvore gritou:<\/p>\n<p>\u2013 Vou para o belel\u00e9u, espero voc\u00eas l\u00e1, anjos me acudam.<\/p>\n<p>Que ele chegue logo no c\u00e9u, e encontre com Santa Edwiges, para livrar suas d\u00edvidas do barrac\u00e3o do patr\u00e3o, e tamb\u00e9m encontre os seus parentes sem se perder no caminho, que estavam com saudades e v\u00e3o receber ele l\u00e1 em cima com amor, para ficarem todos juntos eternamente. \u00a010 Ave Maria cheia de gra\u00e7a, o senhor \u00e9 convosco, bendita sois v\u00f3is entre as mulheres, bendito \u00e9 o fruto do vosso ventre Jesus. Santa Maria m\u00e3e de Deus, rogai por ele o pecador e devedor, agora e na hora de sua morte am\u00e9m.<\/p>\n<p>Segundo Mist\u00e9rio:<\/p>\n<p>Este mist\u00e9rio \u00e9 para que ele fique tranquilo por l\u00e1 onde chegou, e desapegue de tudo que gostava na terra, da casa, dos meninos, e principalmente de sua amada e preciosa mulher, agora desejada por tantos. Quem sabe encontrar uma anja no c\u00e9u.\u00a0 E bem aventurado os honestos, os ot\u00e1rios, os misericordiosos, e os menos p\u00e1vulos. Livra-nos dos espertos e sanguin\u00e1rios. Mais 10 Ave Marias ao modo deles.<\/p>\n<p>Interessante \u00e9 que no terceiro mist\u00e9rio apareceu uma velha parteira e benzedeira que disse ser preparada e competente para rezar Ter\u00e7o, principalmente de encomenda\u00e7\u00e3o de alma, e que estava tudo errado naquela inacredit\u00e1vel ladainha, e gritou com muita raiva:<\/p>\n<p>\u2013 VALHA ME DEUS! Isto n\u00e3o \u00e9 um ter\u00e7o, mas cantiga de bruxaria, pra arranj\u00e1 mui\u00e9.<\/p>\n<p>Pois quando chegava na Santa Maria, os pecadores eram eles os presentes e n\u00e3o a alma, e na hora da morte n\u00e3o era do defunto (pois j\u00e1 tinha morrido) mas dos presentes:<\/p>\n<p>\u2013 VAMOS MUDAR ISSO!<\/p>\n<p>Mas eles nem ligavam, brigaram um pouco animadamente e a prega\u00e7\u00e3o continuava.<\/p>\n<p>Terceiro Mist\u00e9rio:<\/p>\n<p>Este mist\u00e9rio \u00e9 para consolar todos os parentes, amigos e inimigos conhecidos e n\u00e3o, com sua partida t\u00e3o inesperada e inacredit\u00e1vel ao al\u00e9m, e ainda bem que nos deixou esta bela vi\u00fava para consolar e cuidar com estes tr\u00eas curumins, mais 10 Ave Marias.<\/p>\n<p>Quarto Mist\u00e9rio:<\/p>\n<p>Este mist\u00e9rio, vamos rezar por todos os presentes, e pedir que nos mandem mais mulheres, e muita alegria, e mais animadas festas ao seringal. 10 Ave Marias.<\/p>\n<p>Quinto Mist\u00e9rio:<\/p>\n<p>Este mist\u00e9rio, vamos rezar para que os anjos, e as entidades da floresta o recebam em um lindo jardim de seringueiras, l\u00e1 o trabalho \u00e9 feito com asas para atingir as altas arvores de seringa e ser\u00e1 mais simples e menos perigoso e fatigoso, e que ele esque\u00e7a tudo que teve aqui de passagem na terra, principalmente a sua fam\u00edlia. 10 Ave Maria. Concluindo assim mais este estranho e questionado rito de despedida.<\/p>\n<p>Depois desta reza braba, alguns dos presentes, os mais corajosos, que n\u00e3o tinham medo de nada, principalmente de alma penada, se afastaram um pouco para conversar, ficaram contando lendas amaz\u00f4nicas e naquela escurid\u00e3o era o clima prop\u00edcio, de dar medo e arrepio at\u00e9 em enganoso Curupira. Dois homens caminharam um pouco e viram um tronco grosso e sentaram em cima, come\u00e7aram a prosear, contar lorotas e cortar o fumo de rolo e fazer um cigarro de palha com um pequeno e afiado canivete, mas para a surpresa deles, come\u00e7ou a sair um l\u00edquido escarlate da macia \u00e1rvore, apavorados descobriram que estavam sentados em cima de uma Cobra gigante, gritaram e deram uma carreira s\u00f3, ela ficou com mais medo deles ainda e rastejou rapidamente com seu visco ajudada pelos musgos e pela umidade da mata, tchibum caiu dentro do Rio das Almas, saiu nadando rapidamente pois ali percebeu imediatamente que aqueles homens n\u00e3o eram de brincadeira e talvez mais perigosos que ela.<\/p>\n<p>De longe se avistavam olhos curiosos de macacos e seres humanos que de t\u00e3o pobres estavam escondidos atr\u00e1s de \u00e1rvores ou protegidos com folhas gigantes encontradas no caminho, n\u00e3o conheciam ou possu\u00edam dinheiro para comprar roupas quando os regat\u00f5es vinham pelos Igarap\u00e9s e rios para vender toda a sorte de catrevagens.<\/p>\n<p>Daqui a pouco, inesperadamente entrou na casa um homem correndo esbaforido e chegou at\u00e9 a vi\u00fava toda vestida de preto, mais linda e atraente do que nunca, rodeada de meninos, foi l\u00e1 dar-lhe os p\u00easames e aproveitou para falar o seguinte:<\/p>\n<p>\u2013 \u00a0D. Catira, eu sei que o seu marido ainda esta fresco de morte ai na rede de cip\u00f3 onde ser\u00e1 enterrado por n\u00f3s, mas eu quero pedir com todo o arespeito a sua m\u00e3o em casamento.<\/p>\n<p>Ela levantou o v\u00e9u do seu belo e bronzeado rosto, atrav\u00e9s da cobi\u00e7ada boca dourada, disse entre l\u00e1grimas e solu\u00e7os:<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>\u2013 Seu menino me adisculpe, ma eu j\u00e1 fui pedida em casamento por 7 cabras machos que chegaram nestes dias primeiro que v\u00f3smic\u00ea aqui no Seringal, e eu sendo uma mulh\u00e9 s\u00e9ria e\u00a0 de vergonha, j\u00e1 me apalavrei com o primeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Socorro Brasiliense (escritora)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um barulho horr\u00edvel e arrepiante BUMMM, um seringueiro havia ca\u00eddo de mal jeito de uma altura de 15 metros enquanto recolhia o precioso l\u00e1tex da gigante Hevea brasiliensis, leite da vida e da ilus\u00e3o. Com tambores, telefone de \u00edndio, batendo com as nozes de castanha do Par\u00e1 no tronco das gigantescas Suma\u00famas, sinais de fuma\u00e7a, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1045,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-1270","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronicas"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1270","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1270"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1270\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1625,"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1270\/revisions\/1625"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1045"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1270"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1270"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1270"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}