{"id":1267,"date":"2022-11-04T10:17:43","date_gmt":"2022-11-04T13:17:43","guid":{"rendered":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/?p=1267"},"modified":"2022-11-17T10:43:48","modified_gmt":"2022-11-17T13:43:48","slug":"psiu-por-gustavo-rosal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/2022\/11\/04\/psiu-por-gustavo-rosal\/","title":{"rendered":"Psiu, por Gustavo Rosal"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1045 aligncenter\" src=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1-300x170.jpg\" alt=\"\" width=\"388\" height=\"220\" srcset=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1-300x170.jpg 300w, http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1.jpg 388w\" sizes=\"auto, (max-width: 388px) 100vw, 388px\" \/><\/p>\n<p>Sofro de ins\u00f4nia. Tenho meus trejeitos por sofr\u00ea-la. N\u00e3o raro abra\u00e7o a madrugada, acolho-a em meu peito at\u00e9 findar-se no primeiro canto de p\u00e1ssaro ou raio de sol \u2013 quando h\u00e1 sol. Os p\u00e1ssaros, por outro lado, estes sempre h\u00e3o de haver; mesmo que n\u00e3o os materialize em meus t\u00edmpanos, ou\u00e7o-os como uma impress\u00e3o de mem\u00f3ria durante todo fim de madrugada. Mesmo quando visito o concreto de Fortaleza, entre seus pr\u00e9dios de vinte e tantos andares, os escuto e atento. N\u00e3o como o \u2018\u2019exilado\u2019\u2019 Gon\u00e7alves Dias em seu poema-can\u00e7\u00e3o, por desejo de escut\u00e1-los. Mais seria como Gonzaga, que convida o sabi\u00e1 em um \u2018\u2019psiu\u2019\u2019 \u2013 em busca de sua amada. Busco, eu tamb\u00e9m, n\u00e3o o canto, mas seu interm\u00e9dio.<\/p>\n<p>As madrugadas, amo-as como se ama o sil\u00eancio e um quadro de paz, mas, ainda assim, amo mais que a noite que dorme o intervalo que se transfere neste sono: o amanhecer. As auroras s\u00e3o frias inocentes, assemelham-se a belos cristais. Do que as suceder\u00e3o, nada sabem \u2013 crian\u00e7as e seus indicadores na imin\u00eancia de tomadas de eletricidade. S\u00e3o eternas iminentes as auroras, por isso as aprecio, por nada serem al\u00e9m de esperan\u00e7a no branco c\u00e9u que fazem morada.<\/p>\n<p>A chuva batia rala na janela \u2013 quanta falta faz em um m\u00eas de outubro, ou que o valha, o ru\u00eddo constante da chuva \u2013 quando notei o nublado da manh\u00e3. Enquanto a tudo observava, Adoniran Barbosa apoderou-se de minha voz com um de seus sambas antigos. Cantarolei baixinho \u2018\u2019Trem das Onze\u2019\u2019. H\u00e1 tempos que n\u00e3o escutava o sambista, a quem conhe\u00e7o parco repert\u00f3rio: as cinco m\u00fasicas de meu player, dentre elas, a que cantarolei fora de ritmo.<\/p>\n<p>Escusada a ignor\u00e2ncia sobre o artista, reverencio o que dele conhe\u00e7o como quem se aquece com o calor de um caf\u00e9, contemplo como quem admira o prato fino em que come ou a cor de uma camisa: parcialmente. A temperatura, o material de um utens\u00edlio, uma bela tonalidade de roupa n\u00e3o s\u00e3o a qualidade, a comida e a vestimenta, por \u00f3bvio.<\/p>\n<p>Minha simpatia por Adoniran n\u00e3o decorre propriamente de seus sambas, mas da associa\u00e7\u00e3o do nome que ostenta para com uma antiga amiga dos tempos em que morei no Cear\u00e1. Comovo-me ao som do samba e da voz rouca, pois submersa na melodia jaz uma cara amizade que se distanciou no galopar do cavalo que chamamos vida.<\/p>\n<p>Minha como\u00e7\u00e3o \u00e9 diversa de outrora: a can\u00e7\u00e3o permanece bela mas \u00e9 a saudade aquela que chora \u2013 um sussurro da nostalgia. Mas l\u00e1grimas n\u00e3o correm por entre as linhas de meu rosto. H\u00e1 tempos em que resisto sem querer. Uma est\u00e1tua de m\u00e1rmore. Todavia, abro a janela, deito os bra\u00e7os na bancada, deixo a chuva banhar-me a face. Se n\u00e3o choro, sinto a aurora chorar por mim e agrade\u00e7o no sil\u00eancio; assisto as gotas encherem po\u00e7as que formam-se no cimento, as infinitas gotas de c\u00e9u nublado. E cai o c\u00e9u em minha face.<\/p>\n<p>Percebo cantarem os p\u00e1ssaros cortando o samba que toca ao fundo do quarto. Se eu fosse Gonzaga, talvez balbuciasse um \u2018\u2019psiu\u2019\u2019 por alguma aten\u00e7\u00e3o daqueles que cantam e podem voar. Mas sou Rosal, e como tal, resta-me o olhar serenizado e a melancolia de um mundo particular.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o perd\u00e3o, hoje corrompi a aurora. Choveu o dia inteiro.<\/p>\n<p>Obs: Fiz o poema que se segue sobre a can\u00e7\u00e3o \u2018\u2019Sabi\u00e1\u2019\u2019 do Rei do Bai\u00e3o. \u00c9 um pouco antigo, vinda de um punhado de meses e rejei\u00e7\u00f5es, mas percebo que surge momento oportuno para public\u00e1-lo, vista a cr\u00f4nica, ent\u00e3o:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quisera eu ouvir dos p\u00e1ssaros<\/em><\/p>\n<p><em>Teu nome e o desta poesia<\/em><\/p>\n<p><em>O endere\u00e7o de minha alma<\/em><\/p>\n<p><em>E das belezas fugidias<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Quisera eu falar aos p\u00e1ssaros<\/em><\/p>\n<p><em>Dos tantos saber as penas<\/em><\/p>\n<p><em>Ter canto em seus cantares<\/em><\/p>\n<p><em>Mas \u00e9 outra minha sina<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Quisera ser em outros ares<\/em><\/p>\n<p><em>Dos c\u00e9us um servo alado<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o ser senhor de alardes<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Quisera ser Gonzaga e Sabi\u00e1<\/em><\/p>\n<p><em>E sou surdo aos p\u00e1ssaros<\/em><\/p>\n<p><em>Rosal e a Mosca todavia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Gustavo Rosal \u00e9 poeta e estudante de direito<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sofro de ins\u00f4nia. 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