{"id":1264,"date":"2022-11-04T10:13:57","date_gmt":"2022-11-04T13:13:57","guid":{"rendered":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/?p=1264"},"modified":"2022-11-17T10:44:12","modified_gmt":"2022-11-17T13:44:12","slug":"quarta-feira-de-preto-por-patricia-araujo-lima","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/2022\/11\/04\/quarta-feira-de-preto-por-patricia-araujo-lima\/","title":{"rendered":"Quarta-feira de preto, por Patr\u00edcia Ara\u00fajo Lima"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1045 aligncenter\" src=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1-300x170.jpg\" alt=\"\" width=\"388\" height=\"220\" srcset=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1-300x170.jpg 300w, http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1.jpg 388w\" sizes=\"auto, (max-width: 388px) 100vw, 388px\" \/><\/p>\n<p>O despertador toca. 7:00 da manh\u00e3. Levanto-me j\u00e1 exausto. Bebi a noite inteira, imaginei acordar com uma dor de cabe\u00e7a infernal, mas nem isso. Quem se casa \u00e0s 9:00 de uma ter\u00e7a-feira de fevereiro? Em pleno Carnaval? Por Deus! \u00c9 fevereiro, \u00e9 folia, estamos no Brasil. N\u00e3o percam tempo, v\u00e3o beber, dan\u00e7ar, falar bobagem, transar em alguma esquina temendo serem flagrados!<\/p>\n<p>Eu sempre odiei as segundas, a partir de hoje ser\u00e3o dois dias insuport\u00e1veis no m\u00eas. Ter\u00e7a-feira. Fevereiro. Reviro a desordem das minhas mem\u00f3rias cansadas e fadadas a serem esquecidas em uma manh\u00e3 de chuva. Foi nesse afamado m\u00eas tamb\u00e9m que nos conhecemos. Levanto e vou at\u00e9 o banheiro. No espelho, vejo o reflexo da minha incompet\u00eancia em fingir que \u00e9 apenas um casamento, logo vai acabar e voltarei para minha rotina impec\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ela nunca funcionou de manh\u00e3, talvez por isso esteja se casando, sua sanidade deve estar abalada por acordar cedo todos os dias para correr, outra novidade que me deixou consternado. N\u00e3o acredito mais em nada e ningu\u00e9m. As pessoas, elas n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis. Como pode ter mudado tanto? Um \u201cnovo amor\u201d n\u00e3o pode transformar algu\u00e9m dessa forma. N\u00e3o deveria. Coloco a gravata. Ela dizia que a roupa social em tons escuros me ca\u00eda muito bem, mas que de bermuda e esparramado no sof\u00e1, dormindo nos primeiros dez minutos de um filme, ficava mais elegante. Ela tinha dessas, de falar coisas sublimes em situa\u00e7\u00f5es desastrosas e esbravejar em momentos de delicadeza. Nunca foi boa com meio termo. Nem no cabelo. Certa vez cortou o longo at\u00e9 a altura do ombro. Que espet\u00e1culo! Ali\u00e1s, ela era mesmo assim, como um grande, barulhento e iluminado espet\u00e1culo. Sempre que chegava a qualquer recinto, ela acontecia. Nada mais importava. Nada tinha tanto peso. Absolutamente tudo nela brilhava com mais intensidade. Talvez por isso odiava quando passava horas e horas com conhecidos ou estranhos que n\u00e3o davam a devida aten\u00e7\u00e3o \u00e0quele acontecimento \u00fanico. N\u00e3o percebiam a mais profunda ess\u00eancia que ali habitava, que era majestosamente encantadora e deslumbrante. Por muitas vezes, eu fui um deles. Fui um dos melhores em ignor\u00e1-la, rejeitar seus sinais, demorar mais do que devia no banho. Eu tentei, mas tentei pouco, assumo. Hoje eu faria um pouco diferente, ou talvez n\u00e3o. Nunca se sabe o que fazer num segundo, at\u00e9 que o pr\u00f3ximo aconte\u00e7a. Faz tanto tempo. Pego as chaves do carro. Uma t\u00edmida l\u00e1grima teima em escorregar janela afora sentindo a for\u00e7a da avalanche de solu\u00e7os que est\u00e1 por vir, mas clamo q seja firme. O Fim est\u00e1 pr\u00f3ximo. Coloco o cinto de seguran\u00e7a. Sinto-me preso. Ser\u00e1 a \u00faltima vez que uso essa porcaria de cinto, juro!<\/p>\n<p>Estaciono. Procuro um desconhecido. Preciso de uma v\u00e1lvula de escape. Perguntaria sobre seu descontentamento com o emprego, seus filhos, o cachorro que morreu e de como foi a separa\u00e7\u00e3o. Qualquer um me serviria agora, menos os aparentemente felizes e satisfeitos com suas vidas med\u00edocres, esses eu ignoro. Arranjei um chopp no boteco mais pr\u00f3ximo do lado de fora da igreja. Ela sempre odiou o cheiro da cerveja, mas pedia para tomar apenas uma \u00e0s vezes, mais precisamente porque queria me ouvir dizer coisas doces e suaves que eu n\u00e3o teria coragem de dizer s\u00f3brio, com m\u00e1scaras e filtros. Mas onde anda essa mulher? Dez minutos atrasada, jamais esperaria isso dela. Deve estar sentindo n\u00e1useas para manter o tradicional atraso. Se tivesse sido a primeira noiva a casar-se no mundo, a pontualidade seria a refer\u00eancia. O noivo j\u00e1 est\u00e1 impaciente, com raz\u00e3o. Vejo-o bater com os dedos no encosto de madeira que sustenta o jarro de flores. Girass\u00f3is magn\u00edficos, at\u00e9 hoje quando os vejo, o rosto dela se materializa como em um sonho. Todos focam para um lugar e meus olhos os acompanham. Ela acaba de sair do carro. Meu instinto de correr para dentro da igreja e me camuflar por entre os curiosos foi tra\u00eddo por uma paralisia instant\u00e2nea. Tento fechar os olhos para n\u00e3o manter contato visual, mas \u00e9 imposs\u00edvel. \u00c9 Inevit\u00e1vel n\u00e3o focar naqueles olhos intensos, cheios de ternura. Deu um sorriso meio t\u00edmido e singelo de canto de boca que s\u00f3 a ela pertencia, como se dissesse que est\u00e1 feliz por eu estar ali. Quanta falta eu senti daquela presen\u00e7a. Talvez jamais conseguirei explicar com exatid\u00e3o o que se passou nos poucos minutos antes de adentrar a igreja. Ignorou os dois ou tr\u00eas convidados que estavam fora como eu, correu at\u00e9 mim sem cuidado algum com aquele enorme v\u00e9u. T\u00e3o espont\u00e2nea como sempre. Chegou bem perto. Abriu o sorriso. \u00c9 a coisa mais linda em qualquer raio de dist\u00e2ncia que existir entre n\u00f3s e o mundo. Fotografei aquela imagem na minha mente por pura precau\u00e7\u00e3o, mesmo sabendo que ela j\u00e1 est\u00e1 entalhada l\u00e1 faz tempo. Abra\u00e7amos-nos, n\u00e3o precisou dizer nada. Tudo j\u00e1 havia sido dito entre n\u00f3s h\u00e1 anos. A voz embargada e o resto de bom senso que me restava deixou escapar um simpl\u00f3rio \u201cParab\u00e9ns!\u201d. Mas pelo qu\u00ea? N\u00e3o conseguia enxergar qualquer celebra\u00e7\u00e3o ali, ao contr\u00e1rio, estava morrendo. Era seu fim. Meu tamb\u00e9m. Os desavisados n\u00e3o vieram de preto, de certo n\u00e3o perceberam. De toda forma, tentarei vel\u00e1-la com a maestria de um parente distante. \u00c9 isso, sempre soube que nas igrejas aconteciam os maiores infort\u00fanios. Quantas almas feridas j\u00e1 passaram por aqui? Quantos amores perdidos? Quantas vidas massacradas por toneladas de \u201cSim\u201d? Quanta ang\u00fastia cabe em um altar? Aqui se escondem as maiores trag\u00e9dias da humanidade. Uma orgia todo domingo seria mais pura que essa cerim\u00f4nia. Sinto que estou com febre. O padre diz coisas que n\u00e3o consigo compreender. Latim ou apenas a l\u00edngua dos anjos? Na verdade, n\u00e3o ou\u00e7o nada. N\u00e3o estou aqui. Poucos sons ecoam na minha mente. Viajo em meus pensamentos, devaneio por acontecimentos irreais, planejo meu destino para as pr\u00f3ximas f\u00e9rias, futuros surtos de euforia, pr\u00f3xima bebedeira com os poucos amigos que ainda me restam. Fito o cabelo mal arrumado da convidada sentada \u00e0 minha frente, qualquer ponto fixo \u00e9 mais agrad\u00e1vel que aquelas duas m\u00e3os dadas juntando-se por um sentimento grotesco. Sinto enjoo. N\u00e3o consigo respirar. Estou suando frio, que diabos!<\/p>\n<p>\u201c\u2026 Ou cale-se para sempre\u201d. Essa \u00e9 a hora? Esse \u00e9 o aclamado sinal divino de um ato de amor impensado e heroico? \u00c9 agora que fujo com a mocinha para bem longe desta imund\u00edcie forjada de final feliz? Mas e se a protagonista n\u00e3o quiser fugir comigo? Pior, se ela realmente quiser ficar com o vil\u00e3o? Oh, c\u00e9us, que os anjos toquem suas trombetas! Meu corpo reverbera inteiro num s\u00fabito clamor de coragem, meus l\u00e1bios tr\u00eamulos, meus olhos esbugalhados incompreendem o que est\u00e1 por vir. Impulsiono-me a levantar, uma m\u00e3o repousa em meu ombro. Quem se atreve a me impedir? Deus ou o pr\u00f3prio Diabo? Algu\u00e9m me alerta que j\u00e1 est\u00e1 tarde, a igreja ir\u00e1 fechar as suas malditas portas. S\u00f3 ent\u00e3o me dou conta que j\u00e1 \u00e9 noite. Havia permanecido ali sentado o dia inteiro articulando meu plano de fuga de mim mesmo. Clarice jamais diria que a solid\u00e3o \u00e9 um luxo se me visse naquele instante.<\/p>\n<p>Levanto com um pouco de dificuldade e confirmo que a idade vem me maltratando mais a cada dia. Saio cambaleando pelos degraus sagrados at\u00e9 o carro. Trope\u00e7o num dos cascos de cerveja esquecidos por um grupo de foli\u00f5es. Nesse meio tempo, finalmente me vem uma epifania estupenda. Eu a perdi. A sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica \u00e9 mesmo de quem levou uma surra, a mental n\u00e3o consigo descrever. N\u00e3o coloco o cinto, ligo o carro. Dirijo para algum lugar que n\u00e3o sei onde fica. N\u00e3o consigo enxergar completamente a estrada. H\u00e1 uma escurid\u00e3o tenebrosa. Mais em mim que na estrada. Umas gotas d\u2019\u00e1gua come\u00e7am a beijar o ch\u00e3o. Apesar do barulho de felicidade alheia ao fundo, tudo me soa silencioso agora.\u00a0 Vejo alguns arbustos e \u00e1rvores na curva. Acelero. O c\u00e9u se tornou estrelado, sem uma nuvem. Que bela paisagem para um discreto e \u00faltimo suspiro. 19:00 da noite. O fim nunca esteve t\u00e3o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Patr\u00edcia Araujo Lima (Escritora e Professora de L\u00edngua Portuguesa)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O despertador toca. 7:00 da manh\u00e3. Levanto-me j\u00e1 exausto. Bebi a noite inteira, imaginei acordar com uma dor de cabe\u00e7a infernal, mas nem isso. Quem se casa \u00e0s 9:00 de uma ter\u00e7a-feira de fevereiro? Em pleno Carnaval? Por Deus! \u00c9 fevereiro, \u00e9 folia, estamos no Brasil. 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