{"id":1258,"date":"2022-11-04T10:11:04","date_gmt":"2022-11-04T13:11:04","guid":{"rendered":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/?p=1258"},"modified":"2022-11-17T10:45:26","modified_gmt":"2022-11-17T13:45:26","slug":"tempos-modernos-por-jullyane-alves-teixeira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/2022\/11\/04\/tempos-modernos-por-jullyane-alves-teixeira\/","title":{"rendered":"Tempos modernos, Por Jullyane Alves Teixeira."},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1045 aligncenter\" src=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1-300x170.jpg\" alt=\"\" width=\"388\" height=\"220\" srcset=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1-300x170.jpg 300w, http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/image003-388x220-1.jpg 388w\" sizes=\"auto, (max-width: 388px) 100vw, 388px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Vivo a rotina incessante de caminhar todos os dias pelos mesmos corredores para me enclausurar na mesma sala fechada e me cobrir de pap\u00e9is e burocracias. Minhas solas est\u00e3o gastas, cabem j\u00e1 os desenhos dos meus p\u00e9s. A mente cansada praticamente n\u00e3o enxerga adiante a pr\u00f3xima tarefa. A mais-valia me escorre nos dedos, enriquecendo diariamente quem me rouba a alegria de viver nos anos que deveriam ser mais meus. Volto pra casa e estou presa novamente em um bloco de concreto, com porteiro 24 horas, onde nem sei o nome dos meus vizinhos e as crian\u00e7as t\u00eam tablets antes de bicicletas.<br \/>\nTenho a impress\u00e3o de que n\u00e3o faz muito tempo, eu ainda era livre dessas amarras e adorava prestar aten\u00e7\u00e3o aos cen\u00e1rios em volta de mim. N\u00e3o precisava me preocupar com o tr\u00e2nsito, n\u00e3o sabia dirigir nem tinha carro, mas tinha a vastid\u00e3o do mundo a observar. Andava a p\u00e9, via cachorros, pra\u00e7as, crian\u00e7as brincando. Esperava o \u00f4nibus, sempre atenta a quem passava, os namorados em conversas de p\u00e9 de ouvido, os ambulantes oferecendo seus produtos, crian\u00e7as chupando pirulitos. Meus trajetos de \u00f4nibus sempre foram longos. Na maioria das vezes, usava aquele tempo para ler, mergulhava na hist\u00f3ria e num instante chegava ao meu destino. Ainda hoje, sempre levo um livro comigo para qualquer lugar, mesmo sabendo que nem terei tempo de abri-lo, me sinto mais confiante s\u00f3 em t\u00ea-lo junto a mim.<br \/>\nAlgumas vezes, ficava olhando paisagens, memorizando esquinas e letreiros, apreciando a vida que se espalhava pelas janelas como fotografias instant\u00e2neas, imaginando as hist\u00f3rias por tr\u00e1s daqueles pequenos recortes da realidade de desconhecidos. Outras tantas, ficava prestando aten\u00e7\u00e3o no que se desenrolava ao meu redor, curiosa do desfecho de uma conversa no banco \u00e0 frente do meu. As pessoas que iam comigo, mesmo que eu nem soubesse o nome, me pareciam t\u00e3o familiares como se f\u00f4ssemos muito pr\u00f3ximas.<br \/>\nAs crian\u00e7as ainda brincavam na rua e os vizinhos sentavam-se \u00e0s portas para conversar e ver a vida dos outros. As m\u00e3es precisavam sempre chamar os filhos quando ficava muito tarde para que eles, relutantes, acabassem as brincadeiras. Lembro-me de quando ganhei minha primeira bicicleta\u2026 voltamos \u00e0s bicicletas! Sempre as adorei! Chegava da escola e n\u00e3o perdia tempo, n\u00e3o importava a hora do almo\u00e7o nem o sol a pino. Percorria as ruas do meu pequeno bairro e me aventurava nas ladeiras de pi\u00e7arra dos terrenos ainda baldios das redondezas, sem medo. Tudo o que eu tinha era a minha liberdade, hoje n\u00e3o consigo compr\u00e1-la por dinheiro nenhum.<br \/>\nEu tenho um sonho e o acalento quando a desesperan\u00e7a me ronda. Nele, ando descal\u00e7a, olho o mar, corro atr\u00e1s de borboletas. Sinto a chuva cair no rosto sem me preocupar com maquiagem e cabelos alinhados. Leio um livro tranquilamente enquanto me balan\u00e7o numa rede. Cuido das minhas plantas sem pressa, apreciando suas novas flora\u00e7\u00f5es. Amo meu corpo, me visto de vento e poesia. Celebro o amor e a natureza, na certeza de que ningu\u00e9m mais morrer\u00e1 de fome no mundo. E, assim, com a mem\u00f3ria do que ainda n\u00e3o vivi, embalo promessas de dias melhores sem me preocupar com a viol\u00eancia e o fim do m\u00eas, inspiro profundamente e arranjo for\u00e7as para mais um dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Vivo a rotina incessante de caminhar todos os dias pelos mesmos corredores para me enclausurar na mesma sala fechada e me cobrir de pap\u00e9is e burocracias. Minhas solas est\u00e3o gastas, cabem j\u00e1 os desenhos dos meus p\u00e9s. A mente cansada praticamente n\u00e3o enxerga adiante a pr\u00f3xima tarefa. 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