{"id":1232,"date":"2022-11-04T09:47:19","date_gmt":"2022-11-04T12:47:19","guid":{"rendered":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/?p=1232"},"modified":"2022-11-04T09:47:19","modified_gmt":"2022-11-04T12:47:19","slug":"o-nao-e-o-cafe-por-josiel-barros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/2022\/11\/04\/o-nao-e-o-cafe-por-josiel-barros\/","title":{"rendered":"O n\u00e3o e o caf\u00e9, por Josiel Barros"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1153\" src=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/maquina-de-escrever-velha-em-um-desktop-com-rosas-brancas_1104-70-300x174.jpg\" alt=\"\" width=\"388\" height=\"226\" srcset=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/maquina-de-escrever-velha-em-um-desktop-com-rosas-brancas_1104-70-300x174.jpg 300w, http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/maquina-de-escrever-velha-em-um-desktop-com-rosas-brancas_1104-70.jpg 626w\" sizes=\"auto, (max-width: 388px) 100vw, 388px\" \/><\/p>\n<p>Dessa vez ser\u00e1 diferente. Como pode Teresa sair outra vez sem mim? Tudo bem das outras cinco vezes; eu ainda n\u00e3o tinha lhe dado um ultimato. Agora \u00e9 diferente. Mo\u00e7a compromissada em festa sem namorado \u00e9 picanha em churrascaria.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso aceitar sua imposi\u00e7\u00e3o, ainda que tenha os olhos aguados e lhe seja for\u00e7oso falar. Sabe quando voc\u00ea sente que acabou? Todas suas promessas falharam no instante de suas enuncia\u00e7\u00f5es. N\u00e3o vou aceitar aquele jeitinho manhoso de me abra\u00e7ar nem tampouco seu riso que me ganha sem esfor\u00e7o. Vou ench\u00ea-la de \u201cn\u00e3os\u201d. Tudo o que disser receber\u00e1 n\u00e3o como resposta.<br \/>\nQuando escrevia Beijar em Viena sempre \u00e9 melhor, fiz quest\u00e3o de lev\u00e1-la ao Velho Continente. Seria uma \u00f3tima oportunidade para ela conhecer o legado de Wolfgang Mozart, o rio Dan\u00fabio e de nos encarnarmos mais ainda um ao outro; pensei que nada mais seria t\u00e3o rom\u00e2ntico. Poderia ter ido sem ela, mas fiz quest\u00e3o de lev\u00e1-la. Em tudo tenho me sacrificado. Mas ela n\u00e3o demonstra considera\u00e7\u00e3o. Dessa vez h\u00e1 um basta. O n\u00e3o ser\u00e1 resposta pronta a suas canalhices.<br \/>\nEstava assim pensando enquanto esperava Pedro, meu taxista de longas datas. Decidi tomar um caf\u00e9. Entrei apressadamente numa cafeteria meio luxuosa; possu\u00eda uma prataria muito bem cuidada. Seus mobili\u00e1rios gozavam de um charme cl\u00e1ssico e r\u00fastico, eram pe\u00e7as de cedro e couro marrom. Nas paredes uma infinidade de fotografias. Deveria deixar a minha ao sair, caso quisesse. Sentei-me. Um gar\u00e7om bem postado aproximou-se.<br \/>\n\u2013 Um caf\u00e9 com panna, por favor.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o temos, senhor \u2013 Respondeu-me com desconfian\u00e7a.<br \/>\n\u2013 Uhm! Ent\u00e3o um mocha!<br \/>\n\u2013 N\u00e3o fazemos tamb\u00e9m, senhor!<br \/>\n\u2013 Ent\u00e3o um cappuccino italiano, fa\u00e7a favor!<br \/>\n\u2013 Desculpe senhor, mas n\u00e3o temos!<br \/>\n\u2013 Ent\u00e3o um cappuccino simples mesmo, oras!<br \/>\n\u2013 Mas n\u00e3o temos esse tamb\u00e9m, senhor!<br \/>\n\u2013 Como assim? Tem um caf\u00e9 latter? Esse tem, n\u00e9? \u2013 Disse desconfiado de que tamb\u00e9m n\u00e3o era servido ali.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o, senhor! N\u00e3o temos!<br \/>\nO sangue fervilhou; j\u00e1 havia perdido o compasso. N\u00e3o dava para aturar tantos n\u00e3os. \u201cN\u00e3o!\u201d, \u201cN\u00e3o tem!\u201d, \u201cDesculpe senhor, mas n\u00e3o fazemos!\u201d, \u201cN\u00e3o, n\u00e3o conhecemos!\u201d. N\u00e3o! N\u00e3o e n\u00e3o! N\u00e3o pode ser assim. Fiz for\u00e7a e, com o exerc\u00edcio de cavalheiro, arrisquei outra vez:<br \/>\n\u2013 Um pingado!<br \/>\n\u2013 Bom, senhor, at\u00e9 que conhe\u00e7o, mas n\u00e3o fazemos. O dono disse que n\u00e3o d\u00e1 lucro. N\u00e3o vale a pena.<br \/>\nFiquei a flor da pele.<br \/>\n\u2013 Como pode uma cafeteria n\u00e3o entender de caf\u00e9? Agora s\u00f3 falta dizer que n\u00e3o tem caf\u00e9 pre\u2026<br \/>\n\u2013 E j\u00e1 vou me antecipando que n\u00e3o fazemos caf\u00e9 preto.<br \/>\nN\u00e3o aguentei; fui deselegante; falei altivo:<br \/>\n\u2013 Mas afinal de contas, filho de Deus, o que essa cafeteria vende?<br \/>\n\u2013 Refrigerante! \u2013 Disse-me na lata.<br \/>\n\u2013 Como assim? \u2013 Achei tudo aquilo um c\u00famulo.<br \/>\n\u2013 Olhe, cidad\u00e3o, s\u00f3 pode ser uma piada, n\u00e9? Isso deve ser alguma pegadinha de tev\u00ea. \u00c9 isso?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o! N\u00e3o, senhor!<br \/>\n\u2013 Rapaz, numa livraria se vende livro; numa churrascaria se come churrasco; numa papelaria, papel, ent\u00e3o numa cafeteria se deve vender caf\u00e9, certo?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o! Aqui n\u00e3o, senhor!<br \/>\n\u2013 Como n\u00e3o? Voc\u00ea est\u00e1 maluco!<br \/>\n\u2013 N\u00e3o, senhor! O maluco aqui n\u00e3o sou eu.<br \/>\nNesse momento, disse algo que p\u00f4s em cheque meu ego.<br \/>\n\u2013 O senhor n\u00e3o sabe ler, n\u00e3o?<br \/>\nSenti-me afrontado.<br \/>\n\u2013 Olhe rapaz, voc\u00ea n\u00e3o sabe o que diz!<br \/>\n\u2013 Foi voc\u00ea, senhor, que chegou aqui todo fresco, com hist\u00f3ria de bacana e nem se deu conta que n\u00e3o vendemos caf\u00e9.<br \/>\n\u2013 Rapaz, \u00e9 isso que n\u00e3o entendo. Como \u00e9 cafeteria se n\u00e3o vende uma m\u00edsera x\u00edcara de caf\u00e9? \u2013 Disse berrando aos seus ouvidos.<br \/>\nO gar\u00e7om me chama para fora. Pensei \u201choje levo uma surra\u201d.<br \/>\n\u2013 O que voc\u00ea l\u00ea? \u2013 Perguntou-me esbaforido.<br \/>\nNessa hora amarelei. Deus do c\u00e9u, que vergonha!<br \/>\n\u2013 O que voc\u00ea l\u00ea? Diga! Vamos!<br \/>\nContive-me em pedir desculpas. Sai envergonhado a pegar um t\u00e1xi qualquer.<br \/>\nCheguei ao port\u00e3o; Teresa corre ao meu encontro; lan\u00e7a-se ao meu pesco\u00e7o e me encobre de beijos. Seus olhos marejados e seu riso manhoso n\u00e3o me dizem mais nada, al\u00e9m de \u201cPerd\u00e3o!\u201d.<br \/>\n\u2013 Oi, m\u00f4, voc\u00ea est\u00e1 t\u00e3o p\u00e1lido. De onde voc\u00ea vem? \u2013 Disse acariciando-me o rosto.<br \/>\n\u2013 Da bendita Caf\u00e9 Teria! \u2013 Respondi, aliviando-me. \u2013 Deus, era Caf\u00e9 Teria! \u2013 Disse olhando aos c\u00e9us.<br \/>\n\u2013 Ah, sei!<br \/>\n\u2013 Voc\u00ea sabe?<br \/>\n\u2013 Sim! J\u00e1 tomei refrigerante com amigas l\u00e1.<br \/>\nNessa hora, depois de tudo, e diante de seu riso largo e de seus olhos pedintes, o que seria mais prudente? Queimar a l\u00edngua e impor n\u00e3o aos meus \u201cn\u00e3os\u201d! Claro.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Josiel Barros \u00e9 professor de L\u00edngua Portuguesa, Bacharel em Direito e Escritor.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dessa vez ser\u00e1 diferente. Como pode Teresa sair outra vez sem mim? Tudo bem das outras cinco vezes; eu ainda n\u00e3o tinha lhe dado um ultimato. Agora \u00e9 diferente. Mo\u00e7a compromissada em festa sem namorado \u00e9 picanha em churrascaria. N\u00e3o posso aceitar sua imposi\u00e7\u00e3o, ainda que tenha os olhos aguados e lhe seja for\u00e7oso falar. 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