{"id":1225,"date":"2022-11-04T09:43:01","date_gmt":"2022-11-04T12:43:01","guid":{"rendered":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/?p=1225"},"modified":"2022-11-17T10:41:19","modified_gmt":"2022-11-17T13:41:19","slug":"negacao-por-daniely-marques-de-carvalho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/index.php\/2022\/11\/04\/negacao-por-daniely-marques-de-carvalho\/","title":{"rendered":"Nega\u00e7\u00e3o, por Daniely Marques de Carvalho."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1153 aligncenter\" src=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/maquina-de-escrever-velha-em-um-desktop-com-rosas-brancas_1104-70-300x174.jpg\" alt=\"\" width=\"388\" height=\"226\" srcset=\"http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/maquina-de-escrever-velha-em-um-desktop-com-rosas-brancas_1104-70-300x174.jpg 300w, http:\/\/sescpiaui.com.br\/escreversemfronteiras\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/maquina-de-escrever-velha-em-um-desktop-com-rosas-brancas_1104-70.jpg 626w\" sizes=\"auto, (max-width: 388px) 100vw, 388px\" \/><\/p>\n<p>Tinha acordado de um sono profundo e sem sonhos. Sem olhar para os lados, sentou-se, procurando com a pontinha dos p\u00e9s, os chinelos que sempre ficavam ao p\u00e9 da cama. N\u00e3o estavam l\u00e1. Levantou-se cuidadosamente como sempre fazia, e foi logo saindo do quarto. Era costume acordar primeiro, mesmo que fosse s\u00e1bado. Neles as coisas aconteciam de forma diferente, j\u00e1 que n\u00e3o acordava com a pressa de arrumar-se para o trabalho. S\u00e1bado era dia de degustar as coisas lentamente. S\u00e1bado era dia de deixar a fuma\u00e7a que sa\u00eda do caf\u00e9 diluir-se no ar juntamente com a m\u00fasica que sa\u00eda no r\u00e1dio. S\u00e1bado era, antes de tudo, dia de abra\u00e7ar-se \u00e0 pregui\u00e7a, ficar de pijama, conversar com as plantas e beij\u00e1-lo demoradamente at\u00e9 acord\u00e1-lo \u2013 n\u00e3o antes de deixar o caf\u00e9 esfriando na x\u00edcara.<br \/>\nSentou no vaso pra fazer xixi. Nem chegou a olhar-se no espelho do banheiro. Sentia que algo estava diferente, a semana passou de forma estranha, sonolenta. N\u00e3o lembrava bem do que tinha vivido nos \u00faltimos sete dias. Recordava-se de ter chorado muito, mas tamb\u00e9m de ter dormido muito. Foi nessa d\u00favida, entre ter vivido e n\u00e3o vivido que sentia que agora havia um vazio. Falta do qu\u00ea? N\u00e3o sabia.<br \/>\nFoi \u00e0 cozinha, estava um pouco bagun\u00e7ada. Lou\u00e7as empilhadas sobre a pia compunham um pren\u00fancio do caos que estava a casa. Pensou o que teria se passado nos \u00faltimos dias que n\u00e3o tiveram tempo de arrum\u00e1-la. Come\u00e7ou a preparar o caf\u00e9. Faria quantidade suficiente para dois, como era de costume. P\u00f4s as \u00e1gua no fogo, pegou x\u00edcara para dois, talheres, mesmo que fosse dif\u00edcil achar algum limpo. Teriam que toma-lo com biscoitos, era a \u00fanica coisa que havia dispon\u00edvel. Estranhou que ele n\u00e3o tivesse comprado p\u00e3es na noite anterior.<br \/>\nEm seguida, foi ao jardim conversar com as roseiras, cactos, samambaias, todas dadas por ele. Sabia da sua paix\u00e3o por plantas ornamentais, apesar de cultivar tamb\u00e9m algumas ervas. Como adoravam cozinhar usando manjeric\u00e3o, r\u00facula, e as pimentas da pequena horta. Olhou com cuidado aquele cacto j\u00e1 murcho, talvez tivesse sido atacado por alguma lesma. Uma pena. Lembrou-se da situa\u00e7\u00e3o em que ele a presenteara com a pequena planta espinhosa. Tinha acabado de chegar de viagem, e na volta passara pela pra\u00e7a onde muitos floricultores vendiam mudas. Sabia que acertaria em cheio ao escolher aquele: coroa-de-frade.<br \/>\nCorreu apressada pra cozinha, a \u00e1gua j\u00e1 tinha reduzido bastante da chaleira, talvez s\u00f3 fosse suficiente para um. Tomaria e depois faria o dele. Assim o fez. Deixaria ele dormir um pouco mais, afinal era s\u00e1bado. Bom mesmo era fazer isso juntos, como tudo que faziam nos mais de vinte e cinco anos de rela\u00e7\u00e3o. Tomou o caf\u00e9 bem quente, ao mesmo tempo em que um filme foi passando na sua cabe\u00e7a. Aqueles anos todos juntos tinham sido t\u00e3o gostosos tanto quanto o caf\u00e9 que tomava nesse exato momento. As viagens, as comemora\u00e7\u00f5es pelas datas especiais, tudo tinha sido muito gostoso, l\u00f3gico que tiveram seus momentos de atrito, mas nada que pudesse arranhar a hist\u00f3ria linda que tinham constru\u00eddo ao longo desses anos. Apesar da aparente normalidade, algo a incomodava. Apesar do desjejum gostoso, algo n\u00e3o descia bem.<br \/>\nListou mentalmente todas as coisas que deveriam fazer ao longo do dia: almo\u00e7o, visitar alguns amigos, cinema no final do dia. L\u00f3gico que fariam isso sem pressa, ou obriga\u00e7\u00e3o de cumprir \u00e0 risca. Se fosse mais conveniente passariam o dia na cama, lendo ou se amando, passariam assim. Nada os impediria. Apesar de toda sua vontade para que o dia corresse bem, seu corpo dizia o contr\u00e1rio. Com toda disposi\u00e7\u00e3o aparente, sentia-se let\u00e1rgica. N\u00e3o entendia ao certo.<br \/>\nContudo, o corpo cansado, a vaga lembran\u00e7a do que ocorrera nos \u00faltimos dias, esse misto de sono com estar acordada, deixava tudo mais estranho. Come\u00e7ou a sentir uma ang\u00fastia. Tomou o caf\u00e9 de um gole s\u00f3, que chegou a descer rasgando. Pela casa apenas o sil\u00eancio. Nada que denunciasse a presen\u00e7a de outra pessoa. N\u00e3o se lembrava dele nas suas mem\u00f3rias recentes. Correu imediatamente para o quarto. Ele n\u00e3o estava l\u00e1. Onde estaria? Aonde teria ido? Levantou-se e n\u00e3o a procurou logo de imediato? Afinal, era s\u00e1bado, ele poderia ter sa\u00eddo pra correr, ou comprar algo no mercado. Esse pensamento confortou-a.<br \/>\nLembrou-se de abrir as portas e janelas da casa, precisava da luz do Sol. A sala parecia sobrevivente de alguma batalha. Nada arrumada, ch\u00e3o por limpar. Dariam um jeito nisso. Sentia falta dele, achava estranho seu atraso. Ele n\u00e3o era de demorar assim. Esse pensamento deixou-a nervosa, com isso veio um leve tremor, uma gota de suor caiu sobre a testa, uma queda de press\u00e3o deixou-a tonta. Achou melhor deitar-se. De forma agitada, correu para o quarto. Parecia \u00f3bvio que algo estava prestes a acontecer, sentou-se na cama como quem cai na realidade, de supet\u00e3o, de um rompante s\u00f3. Parecia certa a previs\u00e3o de um baque profundo. O momento entre o tiro e o alvo acertado.<br \/>\nOlhou para o lado que ele ocupava, estava tudo impec\u00e1vel. Nada remexido. O len\u00e7ol dobrado como se nunca tivesse sido usado. Questionou-se a respeito do que teria acontecido, mas no fundo sabia da resposta. Foi a\u00ed que se lembrou: ele tinha partido h\u00e1 uma semana. Chorou copiosamente, abra\u00e7ada com sua dor e com seus travesseiros. A dor de n\u00e3o aceitar s\u00f3 n\u00e3o era maior do que a dor que sentira no dia de sua partida. Desde ent\u00e3o, vivera todos os dias repetindo o \u00faltimo dia que passaram juntos. Na sua cabe\u00e7a, todos os dias seriam aquele s\u00e1bado antes da sua partida. Como forma de n\u00e3o esquecer cada detalhe, encenava todos os passos, cuidando para que as lembran\u00e7as continuassem vivas na sua cabe\u00e7a, para que a vida que tiveram juntos n\u00e3o se desmanchasse no ar como fuma\u00e7a.<br \/>\nProcurou por todos os lados, l\u00e1 estavam os rem\u00e9dios que a entorpeciam e ajudavam a afastar a aceita\u00e7\u00e3o da morte repentina. Tomou dose suficiente para dormir por horas a fio. Depois que acordasse, viveria por mais uma vez aquele s\u00e1bado, encenando a normalidade, negando para si mesma que estava sozinha e que ele n\u00e3o voltaria mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0<em>Daniely Marques (Escritora)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinha acordado de um sono profundo e sem sonhos. Sem olhar para os lados, sentou-se, procurando com a pontinha dos p\u00e9s, os chinelos que sempre ficavam ao p\u00e9 da cama. N\u00e3o estavam l\u00e1. Levantou-se cuidadosamente como sempre fazia, e foi logo saindo do quarto. Era costume acordar primeiro, mesmo que fosse s\u00e1bado. 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